Juliano Primavesi
Em 2006, Juliano Primavesi arriscou tudo — USD 200 mil de dívida pessoal — em uma empresa de hospedagem chamada KingHost. Doze anos depois ele a vendeu para a Locaweb — uma aposta no escuro numa empresa que poderia um dia abrir capital, ou não. Abriu. Foi um de quatro exits em 25 anos construindo empresas de tecnologia, defendendo-as e aprendendo o que faz uma durar.
A Trajetória
Para entender isso, é preciso voltar ao ensino médio. O primeiro empreendimento do Juliano, a Prokura, era um buscador semi-automatizado que indexava 200 mil sites brasileiros — e foi seu primeiro exit por aquisição. O padrão se formou cedo: construir algo real, aprender fazendo, seguir em frente. Ele o repetiria muitas vezes.
Seu primeiro empreendimento de hospedagem foi a Webrasil, pequena, mas o começo de tudo. Em 2000 co-fundou a Hostnet, levando-a a R$ 60 mil de receita recorrente mensal em dois anos antes de vender suas ações. Vieram então a HostSul, uma onda de produtos de consumo (GigaFree, GigaBusca, GigaFoto, GigaColor) e a Giga — provedora de internet sem fio que ele construiu entre 2014 e 2018, crescendo de 100 para 4 mil clientes por Porto Alegre e a serra, até ser adquirida pela Adylnet.
Então veio o maior salto. Em 2006, USD 200 mil em dívida pessoal compraram uma única convicção: a de que ele poderia construir a melhor empresa de hospedagem do Brasil. A KingHost provou que ele estava certo — devagar, e então de uma vez. Doze anos depois, atendia 80 mil clientes ativos, hospedava mais de 300 mil sites, empregava 220 pessoas, operava com 35% de EBITDA e entrava oito anos seguidos no ranking Great Place to Work das melhores empresas de tecnologia do Brasil. Em 2018, ano em que atingiu o break-even, Juliano chegou ao cume do Monte Kilimanjaro, o ponto mais alto da África — o Uhuru, a 5.895 metros: um cume financeiro e um cume literal no mesmo ano. No ano seguinte, vendeu a KingHost para a Locaweb — então ainda uma empresa de capital fechado; cerca de um ano depois, a Locaweb abriu capital na B3 (LWSA3), transformando uma aposta no escuro numa aposta que deu certo.
Por trás dessa estabilidade havia algo que quase nenhum cliente via. Anos antes da KingHost, Juliano havia construído o Sinapse — primeiro um watchdog preditivo que se autocorrigia diante de quedas, depois um sistema que ajustava os servidores em tempo real e observava cada pacote que cruzava a rede. Em 2009 ele já era capaz de ler uma rajada anômala de tráfego, chegar direto aos roteadores de borda e matar o ataque — no firewall e via BGP, negociando diretamente com os fornecedores de link. Fazia isso quando a Cloudflare ainda era ferramenta de nicho e a Arbor custava uma fortuna. Sob sua gestão, o Sinapse absorveu ataques acima de 200 Gbps e centenas de milhões de pacotes por segundo, detectados em menos de dez segundos, sustentando um SLA de 99,9% de uptime — foi assim que menos de dez pessoas mantiveram vivos mais de 3.000 servidores em três data centers. Esse instinto — perguntar, diante de tudo o que construía, "como alguém quebraria isto?", e resolver a fraqueza primeiro — virou cultura de engenharia na KingHost, ensinada a cada desenvolvedor. É a lente "hacker" com que ele ainda lê empresas de segurança e de IA hoje.
Depois da venda, Juliano permaneceu à frente da KingHost como subsidiária da Locaweb durante o IPO da controladora — um assento na primeira fila da governança e do compliance de companhia aberta. Desde então, atua como conselheiro no ecossistema: ex-Senior Strategic Consultant na UPX (empresa de cibersegurança), membro do conselho consultivo do Guia da Alma e advisor estratégico na Adentro.
Quatro exits lhe ensinaram a mesma lição por quatro ângulos: empresas duradouras nunca se constroem só com capital. Então ele se tornou o investidor que um dia precisou ser. Pela Mahalo Ventures, hoje se associa a fundadores em IA, Cloud e tecnologia de fronteira — trazendo não apenas o cheque, mas o playbook operacional de quem já carregou dívida pessoal, acordou de madrugada milhares de vezes para garantir que tudo seguia no ar, e vendeu uma empresa rumo ao incerto — para depois vê-la chegar à bolsa.
Marcos Principais
- Fundou e fez exit de 4 empresas de tecnologia em 25+ anos
- Escalou a KingHost de USD 200K em dívida pessoal para USD 10M+ de ARR
- KingHost adquirida pela Locaweb (hoje B3: LWSA3) — 2019
- KingHost atinge break-even com 35% de EBITDA — 2018
- 220 colaboradores · 80 mil clientes ativos · 300 mil+ sites administrados
- Criou o Sinapse, plataforma própria que mitigava ataques DDoS de 200+ Gbps em menos de 10 segundos
- 8 anos consecutivos no ranking Great Place to Work (2015–2022)
- Top 150 melhores empresas do Brasil — Você S/A (2017, 2018)
- Membro da Entrepreneurs' Organization (EO)
- Cume do Monte Kilimanjaro, o ponto mais alto da África (Uhuru, 5.895 m) — julho de 2018
Hoje
Ele procura o que um dia teve de construir sozinho: receita recorrente, alavancagem operacional real e crescimento que se compõe. Mas observa o fundador com a mesma atenção — apoiando-se numa formação de pós-graduação em neuropsicologia e psicologia positiva para respaldar pessoas capazes de carregar o peso de construir algo que dure. As empresas mais fortes, ele argumenta, nascem onde fundamentos sólidos encontram um fundador que não quebra.
Áreas de Expertise
- Estratégia e Execução de M&A
- Governança Corporativa & Compliance de Companhia Aberta
- Estratégia de Crescimento e Escala Operacional
- Infraestrutura de Tecnologia (Hospedagem, Cloud, DDoS, VoIP)
- Cibersegurança e Mitigação de DDoS (defesa preditiva, BGP, tuning de kernel)
- Gestão de Pessoas e Construção de Cultura
- Investimento Series A (Cloud, IA, EdTech)
- Neuropsicologia, Psicologia Positiva, Pensamento Sistêmico